Colunista
Luiz Leitão
Administrador e articulista
luizleitao@ebb.com.br
O imperdoável
Perdoar é, acima de tudo, esquecer, sublimar, e não é raro vítimas perdoarem seus ofensores, por vezes os mais cruéis possíveis.
Mas a isso antecede compreender que nutrir o ódio é contraproducente, embora (muito) humano e compreensível.
Todavia, no que concerne às violações por padres pedófilos, justamente aqueles que se dizem representantes de Deus, o perdão das vitimas é virtualmente impossível, porque a marca dessas barbaridades fica indelevelmente gravada em suas psiques; o roubo da inocência, imensurável, as marcará por toda a vida.
Então, não cabe o papa pedir perdão, especialmente quando a própria Igreja fez de tudo para ocultar e proger da punição legal e do escrutínio público os autores dessas felonias, geralmente transferindo-os para outras paróquias, onde vários retomaram as práticas de violações..
Abusos de duzentos (!!) meninos surdos em Wisconsin, Estados Unidos, a Casa Pia de Lisboa, a violentações, anos a fio, escondidas por mais de trinta anos, na Irlanda, com a nojenta conivência da polícia local, a chamada An Garda Siochana, cujos dirigentes à época acharam mais importante proteger a (falsa) imagem da Igreja do que as crianças.
(Vide artigo “Em nome do Estado e da Igreja”)
O papa é culpado, porque autoridade máxima, e por não ter feito nada para reprimir um um pecado, o maior deles, que não está nos Dez Mandamentos, mas deveria ser o primeiro: "protegei as crianças, acima de tudo".
O padre alemão "reverendo" Peter Hullermann abusava de menores desde os anos 1970, e foi apenas transferido de arquidiocese, continuando a lidar com crianças.
Para se ter uma ideia, somente nos EUA, desde 1990, a Igreja pagou cerca de US$ 2 bilhões em indenizações, um montante gigantesco que, entretanto, não ameniza o sofrimento, não apaga as marcas na personalidade das vítimas nem, muito menos, compra-lhes o perdão.
Ratzinger sempre transpareceu uma dureza lapidar, o olhar impenetrável, os discursos marcados pela intolerância que destoa dos que pregam a palavra divina, sabendo que Jesus foi um grande transgressor - o que não significa, em absoluto, malfeitor. Ele, que proferiu a bela frase "deixai vir a mim as criancinhas", foi traído por Ratzinger e seus asseclas com torpeza maior que a de Judas.
Óbvio que o anacronismo do celibato é, em boa medida, a causa desses abusos, porque ridícula a veleidade de tentar conter um dos dos mais poderosos instintos humanos, se não o maior deles - o sexual. Mas isso é problema deles, e dos cristãos conservadores, que defendem perdoar o imperdoável.
Façam o que quiserem, mantenham-se presos a seus dogmas, escondidos em sua falsa castidade, condenando homossexuais, quando um grande do clero no Vaticano se valia dos préstimos de um cantor do coro para arrumar-lhe rapazes, altos, fortes e jovens.
Ninguém intelectualmente honesto liga ou faz troça se padres relacionam-se com homossexuais adultos. Quem os, digamos, "criminaliza", é a própria instituição. Mas abusar de crianças, não!
Não existe perdão para isso. A pedofilia consegue ser ainda mais abjeta que o estupro, e qualquer mulher há de entender isso, e todo homem de verdade. Só os verdadeiros homens, que não precisam afirmar sua virilidade, sentem empatia pelas mulheres, e respeitam seus corpos como o verdadeiro monge venera o templo.
Agressões desse tipo a crianças muito provavelmente pertencem ao ramo da patologia mental, nem por isso atenuantes das barbáries.
Danem-se os malditos conservadores, mas não venham defender o perdão aos algozes da inocência.
Ao inferno Ratzinger e suas certezas absolutas, sua hipocrisia oculta sob a batina, sua "bondade" resumida a declarações de "apoio" a vítimas de cataclismos, quando a catástrofe mais avassaladora ocorre sob o seu manto.
Por sincero que seja o arrependimento dos criminosos de batina, este é, talvez, o único perdão literalmente impossível de concessão.
Luiz Leitão é jornalista
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